quinta-feira, 5 de março de 2009

Ciça

Quando meu amigo querido morreu, em abril do ano passado, na minha cabeça tocava "naquela mesa tá faltando ele, e a saudade dele está batendo em mim". Quem levantou da mesa agora foi uma das minhas melhores amigas, daquelas que você conhece com 20 anos, reconhece um senso de humor parecido e sem igual, e só se diverte. Ela casou, teve filhos, mudou, viveu em Lisboa, Buenos Aires, Miami, e tudo continuou igual: a mesma sintonia do fim da adolescência. Existem amizades que são à prova de tempo. São resistentes. Há pouco mais de quatro anos ela descobriu que estava doente. Lutou com uma elegância de dar vergonha aos menos dotados de coragem. Enquanto eu choramingava por conta de um resfriado, ela contava rindo os mal-estares da quimio. Em seu velório, um dos raros padres que ouvi falando coisas pertinentes disse, repetindo um poeta, que o "céu estava em festa porque ela tinha chegado". Tenho certeza que sim. Mas nosso bar-terra está bem menos engraçado.

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