São Paulo, 27 de agosto. Saio de casa para almoçar na casa de um amigo na Bela Cintra. Começa aí o meu calvário. Preciso comprar três presentes e, sábia, decido parar no estacionamento - quase não se estaciona mais nas alamedas. Naquela esquina da Consolação com Oscar Freire. Fico no meio entre a loja e o almoço. Perfeito. Deixo meu carro e quase tenho um enfarte: o rei do pedaço cobra R$ 15 a hora + R$ 5 a segunda + R$ 3 todas as outras. Comento:
- Caro esse estacionamento. Só porque é o únido da região... Responde o moço:
- Tem gente que acha... tem gente que não... a maioria não... Facada no peito, sou de outro bairro, de outro nível, de outro planeta. E arrisco:
- Mas mesmo assim é caro... Ele me olha com a superioridade dos caixas dos estacionamento de bairros chiques e me atira:
- Mas aqui é o boulevard da Oscar ...
Saio como uma chaleira, apitando e soltando fumaça. Estou indignada. O almoço é uma delícia, 15h15 vou pegar meu carro para ir pedir o reembolso de uma biópsia (faço parte daquele universo de pessoas que, sim, pede reembolso - para seu governo rico também pede só não que levar a documentação). E aí começa a novela "você mora em São Paulo? bem feito, quem mandou..."
A seguradora fica na Rebouças, na mão que desce. Faço meu caminho para fugir dessa avenida-inferno e vou por dentro dos Jardins (na mão que sobe), entro numa pracinha, como fiz a vida inteira, para cruzar a maldita. E quem disse que cruza? Começo a andar em círculos. Nenhuma rua dá em lugar nenhum, todas são contramão, você fica andando feito um peru bêbado sem conseguir sair dali. Entra numa rua, cai na outra, que volta para a mesma, e assim infinita e enlouquecedoramente. Desisto. Vou voltar para casa, onde ufa! eu também trabalho. Faço o caminho de sempre. Está parado.
Munida de todo treinamento yogue, faço respirações relaxantes, meditações, exercícios para o pescoço, as costas e vou indo devargazinho, até que no meio da Bela Cintra descubro dois caminhões dos bombeiros, uma ambulância, um monte de amarelinhos, cacos de vidro na rua, gente olhando. Deve ter sido coisa feia. Perdão, perdão, perdão pela minha intolerância. Consigo chegar em casa às 16h30 (não, não moro na Zona Leste, e nem em Jundiaí).
Entro em casa destruída. Depois de anos de trégua, as luzes da enxaqueca começam a piscar nos meus olhos. A dor de cabeça chega com tudo. O corpo endurece e gela. Perdi a tarde para chegar em lugar nenhum. Não consigo trabalhar, olhar o computador. Minha cabeça parece uma geleca.
Ouvindo a tevê à noite descubro a causa do caos: as meninas do vôlei passearam no caminhão dos bombeiros pela cidade...
Faça-me o favor!
Quem teve a idéia de jerico, de numa cidade feito São Paulo, com o trânsito caótico e todos os problemas que tem, colocar aquelas meninas para desfilar em carro aberto? A cidade parou, quem tinha compromisso se ferrou, e qualquer alegria pelo ouro foi trocada pela raiva de quem estava no carro e não tem tempo para ficar na calçada agitando bandeirinha e picando papelzinho pra jogar da janela. Ainda bem que só ganhamos três medalhas, já imaginou o tamanho da encrenca?
Não cabe mais, nesse inferno de cidade, esse tipo de patriotismo babaca. Até porque du-vi-de-o-dó que aquelas moças ganharam por causa de algum grande incentivo desse governinho de merda.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
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Um comentário:
Má, vi essa zona de outro ângulo. Até tirei foto e coloquei no brog..
http://frangocombanana.blogspot.com/2008/08/assim-se-pra-uma-cidade.html
Fiquei passada tb!
Bjs!
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